Trindade, uma cidade símbolo da fé e da religiosidade em Goiás, vive hoje um contraste evidente entre o que se anuncia e o que se entrega.
O atual prefeito Marden Júnior já foi parte da gestão anterior e está agora em seu segundo mandato consecutivo. Com quatro anos já à frente do Executivo municipal, não há mais desculpas que convençam a população. Marden teve tempo, apoio e estrutura, mas optou por caminhos que priorizam símbolos e marketing. A mais recente estratégia tem sido usar o sino — ainda a caminho da cidade — como instrumento para tentar ludibriar o povo trindadense, desviando o foco das promessas não cumpridas e da gestão ineficiente.
Enquanto ruas sofrem com buracos, praças acumulam mato e os serviços públicos enfrentam lentidão, a atenção do poder público parece ter se voltado para símbolos — como o sino gigante financiado pela AFIP, ao custo de R$ 17 milhões, que ainda está a caminho do Brasil, vindo da Polônia. Mesmo sem ter chegado à cidade, o sino já gera mobilização política e expectativa institucional por parte da gestão.
O prefeito Marden Júnior acompanhou pessoalmente a viagem do sino à Europa. A missão, de caráter religioso e institucional, custou em torno de R$ 170 mil aos cofres públicos, segundo dados preliminares. Embora a motivação envolva o turismo e a devoção popular, a realidade do município exige equilíbrio e prioridades claras.
Desde o primeiro mandato, os primeiros a serem nomeados foram parentes e pessoas próximas ao prefeito. E mesmo neste segundo mandato, nomes como Juliano dos Reis (cunhado), Gabriela Aguiar (irmã) e Roane Azevedo (mãe de seu filho e atual secretária) continuam ocupando cargos de destaque.
Além dos laços familiares, chama atenção a presença de ex-adversários políticos na administração. Sandra Rosa, atual secretária de Saúde, é esposa do ex-candidato a prefeito Dr. Antônio, que já foi vereador e deputado estadual. O mesmo acontece com o filho de Alexandre César, ex-opositor ferrenho de Marden, hoje nomeado para cargo estratégico por indicação do pai.
Dr. Antônio era uma oposição ferrenha, crítico declarado da gestão Marden Júnior. No entanto, trocou todo o seu grupo político por um espaço para a esposa, hoje secretária na administração. Com essa escolha, abandonou a imagem de independência e a possibilidade de vir a ser, no futuro, o principal nome de oposição para disputar a Prefeitura de Trindade. Poderia ser um nome viável para o futuro da cidade, com bagagem e apoio popular, mas sua aliança por conveniência gera decepção em antigos aliados e eleitores. alguém com bagagem e apoio popular. No entanto, ao optar por se aliar à gestão atual e buscar espaço por conveniência, com nomeações para seu grupo, corre o risco de perder a confiança e o respeito da população que o via como uma esperança de renovação para o município.
Enquanto isso, muitos profissionais capacitados e experientes em gestão pública estão de fora da administração. Pessoas que poderiam contribuir tecnicamente para resolver os graves problemas da cidade não têm espaço, porque o critério tem sido político — e não técnico.
A população, que vê ruas esburacadas, mato alto e iluminação pública ineficiente, questiona: onde estão os investimentos nas necessidades básicas?
Marden Júnior, que governa com tantos parentes e agora inclui antigos opositores na gestão, também começa a perder aliados importantes que estiveram ao seu lado desde o primeiro mandato. Muitos desses nomes estão hoje contrariados com os rumos do governo, vendo um início de mandato marcado por decisões que evidenciam falta de compromisso com as promessas feitas em campanha.
A cidade ainda aguarda obras prometidas, como o Anel Viário, o Parque Hugo Reis, a maternidade municipal que foi amplamente anunciada mas até hoje não saiu do papel, e o tomógrafo na UPA, prometido como avanço na saúde e que ainda não foi instalado. Também seguem pendentes melhorias reais na iluminação pública. O sistema de luzes LED, comprado com empréstimos que a população terá que pagar com juros e correções monetárias, já apresenta falhas: várias lâmpadas estão apagadas. Diante de tudo isso, o prefeito começa a demonstrar traços de infantilidade administrativa, priorizando símbolos e alianças de conveniência em vez de soluções práticas para os problemas urgentes da cidade. Vale lembrar que Trindade tem uma população composta por aproximadamente 50% de evangélicos, cuja fé é centrada em Cristo Jesus. No entanto, Marden tem governado com foco excessivo em pautas e eventos ligados à Igreja Católica, voltando sua atenção à projeção estadual e à recepção de romeiros. Trindade precisa de um prefeito que governe para os trindadenses, para quem vive aqui todos os dias — e não apenas para quem visita a cidade uma vez por ano. A fé segue viva entre os fiéis, mas a cidade pede gestão eficiente, atenção ao cotidiano e respeito ao dinheiro público.
O sino é importante como símbolo. Mas não pode soar mais alto que o clamor por saúde, limpeza urbana e dignidade nos bairros de Trindade.
Na visão de Leo Machado Verdade, é preciso dizer aquilo que muitos evitam por conveniência e por salários. Este texto é um compromisso com a população de Trindade. Uma voz jornalística em nome dos que estão calados — e dos que foram amordaçados pelo sistema.